O EVANGELHO PORTUGUÊS

A supra referida Idade do Paracleto não remetia apenas para um Império cristão sucedâneo do Romano, mas para uma forma de organização política e social que privilegiava a supremacia da Autoridade Espiritual sobre o Poder Temporal.
A admissão de tais princípios enquanto realidades tangíveis, guiou D. Afonso V na concepção do Políptico, determinando os seus mais ínfimos detalhes, desde os protagonistas, irmanados numa devoção comum, até à sua ponderada distribuição, segundo números pré-definidos, pelos diferentes quadrantes à direita e à esquerda da obra.
Em resultado do afirmado, o Políptico obedece a uma rigorosa simetria: os sessenta personagens presentes na cena foram distribuídos pelos seis painéis de uma forma que obedece a critérios aritmosóficos e de estética transcendental, tendo subjacentes princípios de geometria sagrada impossíveis de interpretar por quem ignora o assunto. De cada lado (esquerda e direita) contam-se 29 figuras em torno do “Mensageiro”, em ambos os painéis centrais.
Apesar de tudo, o número 17 é o valor aritmosófico que se destaca, decerto pelo simbolismo epilogístico que a Tradição Cristofânica de Ourique lhe emprestou e que D. Afonso V inteligentemente adoptou para melhor legitimar a sua visão escatológica.
A cerimónia figurada é presidida por um jovem nimbado e paramentado com dalmática vermelha que aparenta estar a transmitir uma mensagem da maior importância, a qual é escutada com atenção e respeito.
Sendo uma e a mesma personagem, assume duas atitudes complementares.
Trata-se de Melquisedeque, o 515 (“Il Messo di Dio”, ou Enviado de Deus e sua Face visível), o Rei do Mundo, sede da Magistratura Suprema, personagem conhecido como Preste João na tradição lusa, simultaneamente, Sacerdote, à direita (esquerda do observador) e Rei, à esquerda (direita do observador).


Dalmáticas distintas para as duas representações da figura central:
no painel da direita (esquerda do observador) botões florais por desabrochar,
no da esquerda (direita do observador) uma profusão de flores desabrochadas
e cheias, acompanhadas de ricas ramagens
Enquanto Sacerdote, oficia uma Missa de Pentecostes, no âmbito de um Império do Divino Espírito Santo, como patenteiam os 3 fólios legíveis do Livro aberto, à vista da assembleia.
Já enquanto Rei, empunha uma vara dourada de côvado (45 cm), mantendo o Livro encerrado, bem como ocluso o respectivo conteúdo.
Essa vara de comando e justiça é aquela com a qual o Enviado de Deus medirá o Templo (a Jerusalém Celeste):
XI, 1-2:
E foi-me dada uma cana semelhante a uma vara; e chegou o anjo, e disse: Levanta-te, e mede o templo de Deus, e o altar, e os que nele adoram.
E deixa o átrio que está fora do templo, e não o meças; porque foi dado às nações, e pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses.
XXI, 15-17:
E aquele que falava comigo tinha uma cana de ouro, para medir a cidade, e as suas portas, e a sua muralha.
A cidade é quadrangular, de comprimento e largura iguais. E mediu a cidade com a vara até doze mil estádios. O seu comprimento, largura e altura são iguais.
Mediu também a sua muralha, cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que é a de um anjo.

Convirá, portanto, renomear os painéis centrais: o da direita (dito do Infante) proponho, doravante, que passe a ser denominado da Autoridade Espiritual e o da esquerda (ou do Arcebispo) do Poder Temporal.