O MENINO IMPERADOR DOS ÚLTIMOS DIAS



Na lápide sepulcral de mármore achava-se gravado o seu nome e, em meio relevo, a figura de um menino com o rosto coberto com a mão esquerda, apoiando o cotovelo sobre uma caveira, e com a mão direita apontando para a sentença extraída do livro de Sabedoria (V, 13): "Sic et nos nati continuo desivimos esse" (E também nós logo que nascemos deixámos de existir).
Era ele quem tinha o direito de suceder no trono de Castela e de Portugal, mas D João II, por motivos políticos ocultou o seu nascimento e exilou-o compulsivamente.
A reduzida dimensão da espada do Menino, justifica-se por ser uma réplica em miniatura da espada, símbolo de poder e mando, oferecida, em 1475, a D. Isabel a Católica, usurpadora do trono que pertencia a sua mãe, D. Joana.
Essa arma simbólica corrobora a afirmação de ser ele o legítimo herdeiro do trono de Castela, com direito a usá-la.
Além disso, a observação da espada do Menino também corrobora a data da realização do Políptico (1478 a 1481).
De facto, convém abandonar definitivamente a tese de que o Menino retrata o Príncipe D. João, filho de D. Afonso V, e futuro D. João II, como equivocadamente propõe a maioria dos hermeneutas.
Porém, seja qual for a data do Políptico (nunca anterior a 1467), D. João teria no mínimo 12 anos o que não se pode admitir como idade provável do Menino.
Insistem outros, não menos equivocados, que o rosto do Menino teria sido repintado para poder ser identificado como o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, e, portanto, neto de D. Afonso V. Neste caso, tornar-se-ia obrigatória e óbvia a presença no Políptico de seu pai, D. João, e ele, consabidamente, não se encontra ali retratado pois, nesse caso, seria facilmente identificado.
Calculando a altura do Menino no Políptico, constata-se que não será superior a um metro e cinco centímetros, correspondendo à de uma criança de quatro a cinco anos (no máximo), justamente a idade de Gonçalo Fernandes em 1481, ano provável da finalização do Políptico.
A existência de um filho seu e de D. Joana, Rainha de Castela, cujo trono fora traiçoeiramente usurpado por Fernando e Isabel, futuros Reis Católicos, bem como a morte do primo, Carlos, o Temerário, tornou evidente a D. Afonso que a Missão transcendente, recebida como herança de seus antepassados, não fora anulada, mas simplesmente adiada para um futuro indeterminado, ficando, de qualquer modo, destinada a cumprir-se com intervenção de descendentes seus.
O Políptico terá sido idealizado como forma de preservar e transmitir a mensagem a seus descendentes directos (primeiro plano dos painéis centrais) e a outras pessoas (dentro e fora da Nação portuguesa, mas especialmente portuguesas e borgonhesas), de algum modo, vinculadas à Missão a cumprir, quiçá, sem consciência plena de também serem actores no processo (plano de fundo dos mesmos painéis).


A confirmação desse desígnio lê-se na parte final da inscrição existente na bota do Menino, a qual aponta D. Afonso V e D. Joana, ou seja “d A .S. Y” (i. e., “doadores Afonso, assim como Yoana”), como patrocinadores e doadores do Políptico.

Adopto a sugestão de Clemente Baeta de colocar a faixa numa posição que
corresponde ao ângulo de visão, ou de leitura, que o Menino tem quando
olha para a ponta da bota do seu pé esquerdo
O gorro do Menino ocupa uma posição simétrica à do gorro constituído por duas metades unidas por 3 laços de Amor, sendo ambos encimados por pérolas.