Painel 14

D. AFONSO V

D. AFONSO V — Painel 14
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Os cronistas referem que depois da morte de Carlos, o Temerário, seu primo, na batalha de Nancy (5 de Janeiro de 1477), Afonso V, desanimado e desiludido, havendo aborrecido "as coisas do mundo", tencionava dirigir-se a Jerusalém, em cumprimento de um voto antigo.

Contrariado no seu intento, em consequência de interferências familiares, decidiu de “se meter frade”, depois de convocadas as Cortes nas quais faria a sua solene abdicação a favor de D. João II.

Escolheu para o efeito o convento franciscano do Varatojo (junto a Torres Vedras), que fundara em cumprimento de um voto que fizera a Santo António no sentido de obter o seu auxílio para as conquistas magrebinas em que se empenhara.

Aí reservara para si modesto aposento em comunicação com o coro, pelo lado Sul, dependência onde se rasga uma janela de canto, ostentando as armas do Reino (talvez já quinhentista), que dá para o adro da Portaria.

Durante as temporadas em que ali permanecia andava vestido com a murça dos donatos, rezava no coro com os frades, ouvindo missa de uma tribuna que tinha mandado fazer para si e comia com a comunidade no seu refeitório, “pois nunca mais foi alegre e sempre andou retraído, imaginativo e pensoso, mais como homem que aborrecia as coisas do mundo, que como rei que as estimava”.

Contribuíra também significativamente para esse estado de espírito a reprovação pontifícia do casamento com sua sobrinha D. Joana (1462-1530), filha de Henrique IV de Castela e Leão e sua herdeira universal, bem como o exílio na Madeira, de D. Gonçalo Afonso de Avis de Trastâmara Fernandes (1476?-1539), filho de ambos, conforme estipulava o Tratado das Alcáçovas (1479).

No Políptico, é um dos dois personagens que ajoelha com um único joelho (atitude exclusivamente reservada a pessoas régias).

O desenho subjacente (depois rectificado) mostra-o ajoelhado com ambos os joelhos, segurando um documento (pergaminho?) na mão esquerda, quiçá registo do pacto feito com Carlos, o Temerário.

No barrete de Afonso V vislumbram-se símbolos que só a ele lhe quadram: fios de ouro (prestígio e riqueza) que caem do topo, um elefante (monarca pacífico) e uma aba em forma de ameias (Muralhas de Fez, cuja conquista lhe asseguraria a posse da espada embebida numa torre e com ela o Império Universal?).

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Considerando o protagonismo do elefante no contexto medieval, a presença aqui do proboscídeo reportará a Alexandre Magno, e, por extensão, aos monarcas de Avis encarnando o império derradeiro, novos Senhores da Ásia e do comércio com a Pérsia, etc.

Sintomaticamente, na Crónica do Imperador Clarimundo, o seu autor, João de Barros, associa o elefante aos paços maravilhosos de Fanimor, o mago que profetiza o futuro glorioso de Clarimundo e de Portugal:

“[…]. Fanimor, depois que passou algumas palavras de grande amor com Clarimundo, tomando-o pela mão foi-se com toda aquela gente pela costa acima, até chegarem a uns paços de maravilhosa feitura, porque ao longe parecia que era um elefante com um castelo em cima. E não se enganava com isto a vista, pois eram feitos desta feição, e a entrada deles era pelo costado do elefante, e lá dentro tinha muitos jardins, que se regavam com uma graciosa ribeira, a qual arrebentava em dois olhos de água mui grossa dentro neles. E no castelo que tinha sobre as costas estavam os paços de Fanimor; as riquezas e obra dos quais nós deixaremos, pois se não pode dizer em pouco, aquilo que em perfeição é muito. E da maior torre deles parecia toda a ilha coberta de grandes arvoredos, somente tinha três campos à maneira de várzeas, onde os olhos recebiam deleitação, e os moradores da terra colhiam o galardão [prémio] de seus trabalhos em muito pão, e todas as outras sementes para mantimento necessárias. E estes moradores que em número seriam três mil, viviam em uma vila, que na ilharga do elefante da parte do norte estava, e por uma grande porta se serviam para dentro dos paços, onde o mais do tempo andavam folgando, porque a terra era tão frutífera, que com pouco trabalho dos moradores dava todas as cousas necessárias, e tão temperada, que se não sentia calma, nem frio, tudo era posto em um meio para a humana natureza necessário”.